sábado, 10 de junho de 2017

Capítulo 00 - Operação Sun & Moon



Estava eu despreocupadamente escovando os dentes, quando alguém resolve tocar a campainha da humilde mansão magnata de um Campeão Regional da Liga Pokémon. Sem pressa, enxaguei-me, coloquei um roupão por cima dos ombros, que até então estavam desprotegidos (eu tinha acabado de sair do banho), e fui em direção à porta, torcendo para que não fosse nenhum treinador querendo me desafiar àquela hora da noite.
            Sinceramente, eu não estava nem um pouco a fim de fazer qualquer coisa. Tudo o que eu queria, era me atirar em meu colchão folheado a ouro e ficar olhando para as estrelas, através do teto solar acima de minha cabeça. Tudo o que eu queria, era me esquecer. Esquecer o trabalho, esquecer quem eu era, esquecer da vida.
Ano passado foi um momento tenso para todos no mundo Pokémon com a vinda de um meteoro esmagador em direção ao planeta. E no ano anterior, eu estava em uma jornada cheia de complicações e bandidagem por parte de uns idiotas mal intencionados. A coisa só piorou a partir do momento em que me tornei campeão. Eu pensei que tudo ficaria mais fácil, que portas se abririam, que meu caminho na estrada da fama fosse sempre para cima. Que nada. A preocupação aumentou. E muito.
            Já dizia o lendário Stan Lee: Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Não que eu queira me achar, mas exercer o cargo de campeão é como liderar um país inteiro. Você se torna o presidente, ou ainda, o protetor e conselheiro de uma região como um todo. Os membros da elite dos quatro pedem dicas a você, os líderes de ginásio, os treinadores, os pais dos treinadores, a imprensa... E então, todos parecem dar atenção demais a sua pessoa, mas não pelo que você está sentindo no momento. Pelo contrário. Isso não importa. Ninguém quer saber se o pai do campeão faleceu há dois meses. Todos querem saber dos rumores infundados de divórcio. Um escândalo.
            Por isso, decidi comprar uma mansão afastada no último Black Friday, por apenas 10 milhões de pokédollars no ponto mais afastado na região: um cânion onde ninguém consegue chegar a pé, com uma vista linda para uma praia paradisíaca alguns metros mais abaixo. Aquilo era perfeito. Eu tinha a paz que tanto queria. Naquele lugar, só existia minha esposa e eu. Aliás, minha esposa, eu e o “resto”. Mas felizmente, o resto não podia falar, pedir conselhos ou nos desafiar para uma batalha. Graças aos céus, minha mobília vintage dos anos 50 era tudo o que eu tinha de mais precioso para preencher o vazio daquele hotel que eu ousava chamar de casa.
            Você sente que a situação está chegando a um ponto crítico quando deixa de ser você mesmo por um causa maior. E foi isso o que me levou a comprar uma mansão naquele fim de mundo. Talvez você não tenha essa visão, mas os campeões são tratados como animais de circo. Todo o futuro de um chefe da elite dos quatro depende da vitória dele. É simplesmente sufocante.
            Por sorte, desde que me tornei quem sou hoje, há exatos 24 meses, eu nunca perdi uma única batalha no hall da fama. Caso contrário, eu já teria sido despejado e as atenções voltariam para o vencedor. Pode parecer loucura, mas mesmo que seja um sacrifício se manter no poder, eu preciso sobreviver. Todos nós precisamos. E é por isso que eu insisto em ser o presidente utópico. Aquele que nunca perde, e aquele que sempre está lá quando o povo precisa. Sempre.
            E foi isso o que me fez me submeter à Operação Sanimum. Tudo começou com a maldita campainha que imitava o som de um Pyroar nos seus dias. Não parava de tocar. Cuspi a pasta de dente, peguei o roupão, coloquei uns chinelinhos de pelo e fui até a porta. O meu ânimo estava pra lá de baixo, mas eu sabia que, se eu quisesse me manter no sustento da família, eu teria de aceitar qualquer desafio ou pedido de entrevista que chegasse, mesmo que fosse 1 e 20 da madrugada.
            Já na frente do portal, hesitei antes de abrir. E se fosse algum saqueador? E se fosse alguém querendo vingança? Durante minha primeira jornada Pokémon, topei com muita gente esquisita, e causei muita confusão. Meu nome estava na lista negra dos bandidos. Sendo assim, tive cuidado. Calculei meus passos para não fazer barulho e parei em frente a porta de mogno refinado, espiei pelo olho mágico e reconheci a pessoa do outro lado. Era alguém que eu não via há muito, muito tempo. Abri a passagem com um belo de um sorriso no rosto, o abracei rapidamente para que ninguém questionasse nossos gostos, e deixei que entrasse em meus terrenos.
            — Há quanto tempo?! — disse eu, dando-lhe um tapinha nas costas. Era um homem de vinte e tantos anos, quase dois metros de altura e com cara de rato de academia. Usava bermudas compridas de moletom (só faltava ter escrito “korova” em cima do... você sabe o quê) e um boné na cabeça, sem se importar se estava usando uma camiseta por baixo de seu longo jaleco de pesquisador ou não, mesmo que estivesse quase nevando lá fora, por causa do vento marítimo, que soprava abaixo do cânion com força suficiente para empurrar um carro desfiladeiro abaixo.
            Mas algo estava errado, e foi só então que pude perceber a expressão de espanto e talvez até desespero de meu primo Kukui. Algo que eu desconhecia estava atormentando-o.
            — Vim porque preciso de sua ajuda! — disse o homem terrificado. Sua respiração era ofegante, e parecia estar suando. Subira a encosta correndo, muito provavelmente.
            — O que foi? O que aconteceu? — Perguntei, com uma sensação ruim descendo pela espinha e então preenchendo todo o meu corpo. Aquilo não poderia estar certo.
            — É Alola! — disse ele, quase sem fôlego.
            Alola. Se você não está familiarizado com nossa geografia, este é o estado mais isolado das “Regiões Unidas da América”. Trata-se de algumas ilhas de clima extremamente tropical no meio do oceano, a mais de três mil e cem quilômetros da populosa cidade de Castelia, na região de Unova, e um dos lugares mais bonitos de todo o planeta. Era lá que Kukui morava.
Como presidente do país mais importante das regiões unidas e primeiro ministro do consulado americano, minha atuação como um representante jurídico se estendia até lá, naquele pequeno arquipélago de sanduíches[1]. Ou seja, mesmo tão longe de qualquer região, mesmo do país no qual me tornei campeão, eu tinha influência como representante do governo, podendo solucionar qualquer tipo de problema que o povo de Kukui estivesse enfrentando.
            E uma coisa era certa: se meu primo tinha viajado de tão longe para me pedir ajuda, era porque alguma coisa muito ruim estava acontecendo.
            — O que tem Alola? Aconteceu alguma coisa? — Perguntei, preocupado.
            — As autoridades me enviaram — ele disse. — Não sabem mais o que fazer. Algo de errado está acontecendo com os antigos deuses! Solgaleo e Lunaala têm destruído as coisas... Estão... zangados! Culpam os humanos por alguma coisa, mas não sabemos o que é!
            “Deuses”. Era assim como chamavam as criaturas lendárias por lá. Na verdade, os veneravam, como uma espécie de religião, coisa que não se vê muito por aqui. Mesmo que façamos parte de uma mesma geografia, não temos a mesma cultura.
            — Os vulcões (todos eles) entraram em erupção da noite para o dia. — disse Kukui então. — Desastres naturais estão aparecendo em todos os gráficos, desde tempestades em alto mar a terremotos, tsunamis e inundações! Precisamos da sua ajuda! Eu disse a eles que era um grande treinador e que poderia nos ajudar a solucionar o problema!
            — Eu agradeço pela recomendação, mas e as autoridades de lá? — perguntei. Se Kukui havia se disposto a viajar tamanha distância para me chamar, era porque estavam realmente desesperados. — Como é que não nos avisaram de nada ANTES?
            — Nosso Superior tentou resolver o caso e saiu em uma jornada há 5 dias. Desde então, ele está desaparecido, sem nenhuma forma de contato, enquanto a situação parece estar ficando cada vez pior. Antes de ir, ele deixou bem claro que enviou um relatório ao consulado!
            — Eu li alguma coisa assim nos alertas, mas não mencionava nada disso! Terremotos, vulcões... Nada! Pelo que eu havia entendido, estava tudo sob controle em Alola! O Superior estava no comando!
            — E estava. Até Ele desaparecer. E é por isso que eu vim aqui atrás de você.
— Mas e quanto os líderes de ginásio? — Impossível que eles não tivessem tomado partido ainda se situação estava tão desesperadora. Eles são os primeiros a se manifestar quando algo de ruim acontece com a região para o qual estão trabalhando.
            — Bom, temos Lady Caitlin, o Grande Hoku, o Ed e o Pablo... Todos estão envolvidos com a operação.
            — Mas... Eles não podem fazer nada mesmo?
            — Como eu disse, primo... A coisa está mesmo séria. Precisamos muito da sua ajuda. E... Somos parte de seu povo também! É responsabilidade do seu governo nos amparar! Lembre-se disso!
            — Tudo bem. — disse eu, de repente com uma ideia maravilhosa percorrendo meus oitenta e tantos bilhões de neurônios. — Eu vou. Mas com uma condição!
            — Qual? — Perguntou ele, com um ar de que faria de tudo para que eu realmente fosse nessa expedição.
            — Por favor, não me faça rir. É uma região tropical. — disse eu, já imaginando um lual na areia. — Quero me parecer com um turista. Com alguém que nunca esteve lá e de repente se interessou tanto que decidiu ficar. (Se eu tentasse me enturmar, meu sotaque denunciaria).
            — Você quer então ficar anônimo, é isso? — perguntou Kukui.
            — É. Basicamente isso. Tudo tem que ser um grande segredo, entendeu? E, além disso, no anonimato, eu posso aproveitar um pouquinho, não é mesmo? Praias aloianas são realmente o meu forte. Mas... Um pouquinho mais do que apenas me ocultar. Quero ser um treinador que se interessou pela liga local e decidiu participar. Quero ter um papel!
— O.k., então. Isso é muito fácil de conseguirmos. O que mais vai querer?
            — Kukui, o seu pai... Quer dizer... O tio Hala... Ele ainda tem aquela criação de Pokémon iniciais exóticos?
            — É claro que tem. É de lá que tiro os Pokémon para entregar aos treinadores novatos de Alola, afinal, eu sou o professor pesquisador da região. — Informou Kukui, como se eu estivesse me achando por ser o campeão.
            — Então você vai ter que conseguir dois. Um pra mim e um pra minha esposa. — Era pegar ou largar.
            — Certo. Temos um treinador iniciante que vai começar segunda-feira. Isso fecha os três! Posso muito bem pedir pro pai prepará-los e então posso conseguir um pra você e um pra--
            — O que está acontecendo? — De repente, minha esposa desce das escadas, vestindo um lindo vestido branco de seda um pouco acima do joelho e um simples colar de pérolas genuínas sobre a clavícula. Afinal de contas, ela era muito mais a presidente do que eu. Dividimos os cargos no casamento. Um pouquinho para cada. E ainda assim, é realmente massivo para ambos. A diferença é que eu fiquei mais com a parte de aceitar desafios em batalhas, e ela ficou com a gestão presidencial.
            — Arrume suas malas. — disse eu, tão animado agora, que nem parecia o mesmo de cinco muitos atrás. — Este é meu primo Kukui e estamos tirando férias em uma ilha tropical agora mesmo!
            — O que é isso? Você perdeu o juízo? — Gritou ela, farta de minhas tentativas de desaparecer.
            — Claro que não, amor. É uma missão pelo povo Aloiano que só um Campeão como eu pode resolver! Mas, isso não quer dizer que não podemos aproveitar um pouquinho da vida. — Ela ficou me olhando perplexa, mas então aceitou a ideia numa boa. Já tinham acontecido situações semelhantes anteriormente, mas, infelizmente, eu não pude levá-la comigo. Agora parecia o momento ideal para eu provar o meu verdadeiro amor por ela. — E é bom se preparar psicologicamente, porque vamos tomar um banho de loja antes de irmos pra lá.
            — AAAAAAAAAHHHHH! — De repente, senti um brilho nos olhos de minha companheira. Algo que eu estava acostumado a ver. A reação de minha amada ao receber um “tapa no visual”. — Fechado! Estarei pronta em uma hora!
            — Ah! E querida... Não leve seus Pokémon consigo. — sorri, como quem diz que vai presenteá-la com o melhor Pokémon do mundo. — Vamos ganhar novos!
            — Sério? — Perguntou ela, fascinada.
            — Sério. E vamos participar da Liga Local. Bom, pelo menos vamos fazer de conta que sim.
            De repente, o olhar dela enegreceu.
            — Mas e quem vamos deixar no poder enquanto estamos fora?
            — Ora, essa é fácil! Vamos ligar pro meu outro primo! — disse eu, confiante.
            — O que? Está de brincadeira?!
            — Ele cresceu, afinal. Vamos dar uma chance a ele. Quem sabe ele não goste de ficar no escritório? Em relação às batalhas... Não se pode aceitar nenhum desafio em nosso nome enquanto nós, os Campeões, estivermos fora. É ilegal, Então... É só o deixarmos no controle administrativo. Ele pode fazer isso, não pode?
            — É. Acho que sim. — disse minha esposa, não muito contente com essa história, mas mesmo assim, concordou. — Acho que devo confiar.
            — E depois que a nossa equipe de assistência vai ajudá-lo. Não temos muito com o que nos preocupar. Ultimamente, não temos tido muito movimento. A liga anual recém está no começo...
             — Olhando por esse lado... Acho que não tem mal partirmos pra... Pra... Afinal, pra onde estamos indo? — Pergunta ela, que não tinha ouvido a conversa desde o início.
            — Pro Paraíso. — Respondeu Kukui por mim. — Vamos para as Ilhas Alola!


            — Gostárron? — Perguntou o melhor perito na área de disfarces de infiltração policial do mundo, vindo diretamente da região de Kalos após uma ligação de Kukui. O cara tinha contatos, e isso eu admirava.
            Fiquei perplexo por um momento, imaginando como teria sido a substituição do velho Black por este pirralho de camiseta e bermudão. A imagem que refletia no espelho à nossa frente, em nada se parecia com a gente. Tínhamos rejuvenescido uns 4 ou 5 anos. Talvez até mais. Éramos adolescentes de novo, e já estávamos no clima do hula hula, com trajes dignos de uma região tropical.
            — Nada mal. — disse Kukui, analisando-nos dos pés à cabeça. — E os nomes? Quais vão ser?
            — Não pensei nisso. — disse eu.
            — Que tal Sun... — Disse Kukui apontando pra mim e então girando o tronco para que o braço apontasse pra presidente. — E Moon?
            — Adorei! Combina com o nome da missão! — disse ela. Naturalmente, ela tinha cabelos castanhos claros, quase em um tom de louro escuro e olhos azuis. O meu tom era um pouco mais escuro, e os olhos iguais ao cabelo. Mas agora, com aquela tintura preta e o novo corte, aquela maquiagem toda, a depilação a laser pra não deixar a barba crescer e as lentes cinzentas... Eu era outra pessoa.
            — Mal posso esperar para ver quais iniciais vocês entregam em Alola... — disse eu. — Puxa, estou tão animado! Quando tudo acabar... Terei um Solgaleo e um Lunaala em minha lista de capturas...




[1] O arquipélago que forma o Havaí é conhecido historicamente pelo nome de 'Ilhas Sanduíche' ("Sandwich Islands"). A Região de Alola, por sua vez, é baseada no Estado Americano do Havaí.



Pokémon Sol & Lua: A Missão – Capítulo originalmente publicado em Maio de 2016 sob o título "Pokémon Sol & Lua Adventures" – A cópia, venda ou redistribuição desse material é totalmente proibida. Pokémon e todos os respectivos nomes aqui contidos pertencem à Nintendo.


Ao escrever a fanfic, os autores não estão recebendo absolutamente nada, ou seja, esta é uma produção artística sem absolutamente nenhum fim lucrativo. A fanfic foi projetada apenas como uma forma de diversão, de entretenimento e passatempo para outros fãs de Pokémon. ~


Capítulo escrito por #Kevin_E. F. Stones

2 comentários:

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