quinta-feira, 22 de junho de 2017

Capítulo 02: Mistérios e Suspeitas



~Sun
— Eu te amo, meu amor.
— Eu também te amo, Black!
Nos abraçamos e ficamos deitado, olhando para as estrelas, a cabeça de White apoiada no meu peito, eu sentia o cheiro dos seus cabelos e a leveza dos seus fios em meus dedos. O mundo poderia acabar ali e eu morreria feliz.
Como se o mundo tivesse lido meus pensamentos, um estrondo rompe o silêncio e o chão treme. Levanto, assustado e olho para o vulcão que era como uma gigantesca pira, brilhando em escarlate. Fogo e lava surge do cume da enorme montanha, como fogos de artifícios. Pedras incandescentes começam a cair no mar e ao redor.
Eu e White estamos paralisados, admirados e amedrontados, e não corremos quando uma enorme bola de fogo, como um cometa, vem em nossa direção.
~Moon
Eu não conseguia pensar em outra coisa senão Black. Nos últimos dois anos, passamos por incontáveis discussões e problemas em nosso casamento. A tarefa de governar uma região inteira não é pra qualquer um. Parece que a profissão de campeão foi feita, na verdade, para velhos solteirões que nunca encontraram o amor em suas medíocres e brochantes vidas. Você passa tempo demais tentando resolver o problema dos outros que acaba acumulando os seus em uma pilha, como quem vai deixando a louça para lavar mais tarde, e mais tarde, e quando vê já tem uma montanha de pratos te esperando na cozinha.
Mas, nossa escapada a Alola me fez sentir melhor.  A começar que ainda estávamos  resolvendo o problema dos outros, ou seja, estávamos mesmo cumprindo com nossas obrigações de campeões, ao mesmo tempo em que poderíamos fazer tudo o que viesse à cabeça, sem pressão alguma com horário, contas, cobranças, reclamações e o diabo a quatro.  Podíamos ser qualquer um, em uma vasto horizonte, onde para onde quer que se olha, se veja Too Much Water. Ainda estávamos em nosso emprego, mas era como se tivéssemos voltado à adolescência, em nosso tempo de jornada.
E para comemorar isso, decidimos passar nossa primeira noite nas Ilha Alola na praia. Acamparíamos por ali mesmo, como se fôssemos crianças querendo parecer mais velhas, fazendo de tudo pra chamar a atenção, tudo para mostrar que já não dependiam mais de seus pais. O que eu não previa, era que Black me prepararia um romântico jantar à luz de velas, tudo isso enquanto eu estava distraída nas lojinhas locais.
Ele encheu um carrinho de super mercado com latas e mais latas de aguardente e seja lá o que Arceus quiser. Comprou algum lanche americano qualquer, mas que simplesmente era a melhor coisa do mundo com o toque de temperos Aloianos. Cheeseburguer Tropical.  E me levou para a beira do mar logo no entardecer. Estava tudo calmo, aparentemente. Não havia sinal de chuva ou de terremoto. As ondas estavam calmíssimas. Nada de ressaca.  A única coisa que nos incomodava era o frio vindo da brisa marítima com o cair na noite, mas depois dos primeiros goles, aquilo já nem nos atingia mais.



Ali, não tínhamos preocupação nenhuma. Ninguém estaria ali para nos incomodar, ninguém poderia nos aborrecer com ligações ou qualquer coisa envolvendo os demonstrativos contábeis dos investimentos públicos e blá blá blá. Estávamos completamente sozinhos, e podíamos fazer o que quiséssemos.
PS: Não pense besteira.
Pra você ter uma noção do quão isolada aquela praia era, só havia uma casa junto à areia, mas estava um pouco distante de onde estávamos. E do outro lado do mar, na direção da civilização, havia uma densa floresta tropical e o que parecia ser uma rota de treinadores. Mas àquela hora, não havia ninguém por aquelas bandas e ninguém era louco o suficiente de entrar no mar gelado depois das seis.
Mas lá estávamos nós, com os pés parcialmente afogados em território de sal e vida marinha. Não ligávamos para o frio, não ligávamos para os riscos de hipotermia. Por dentro, estávamos tão quentes quanto chamas. Não. Melhor. Tão quentes quanto o magma. Magma de vulcão.
Espera aí. Vulcão?! VULCÃO! A coisa toda aconteceu tão rápido que quando vimos, nossas roupas novas já estavam chamuscadas. A enorme montanha pra lá da casa na praia começou a cuspir fogo de uma hora para outro e bolas de lava foram expelidas para tudo quanto é lado. As que caíam na água formavam enormes nuvens de vapor, as que pegavam nas plantas adjacentes formavam enormes incêndios e derretiam as árvores como queijo no misto quente. As bolas incendiárias que tinham a sorte de cair na areia não causavam muito estrago, mas o que tínhamos medo mesmo era de que caíssem sobre nossas cabeças.
E de fato, isso parecia estar acontecendo. Pedras vulcânicas na forma de lava saltavam em uma incrível velocidade,  voando pra cima de nós tão rápido que quase nem percebemos. 
Nossas pernas, infelizmente, estavam muito dopadas para nos obedecer. O frio da água havia nos atingido antes que pudéssemos ter noção de que isso estava acontecendo. Empurrei Black para o lado, meio que cambaleando, uma mistura de bêbada com hipotérmica em potencial, mas de nada adiantou. Ainda estávamos na linha de frente, e aqueles torrões incineradores estavam agora a menos de meio metro de distância.
— AAAAAAHHHHH! — Lembro-me apenas de ter gritado, sem poder fazer qualquer coisa para que nos defendêssemos do fim iminente, quando fecho os olhos e o mundo parece ruir ao nosso redor.
Um enorme estrondo toma conta da arrebentação, e um impacto colossal nos joga para trás. Lembro de ter dado outro grito, dessa vez em reação à água congelante inundando minhas costas quentes e meu cabelo recém produzido.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi que  eu não sentia dor. Será que a morte era assim? Nos desligávamos de nossos corpos sem sofrermos com isso? Mas então eu me dei conta de que Black estava gritando alguma coisa. E eu abri os olhos, tentando focar alguma coisa.
Uma enorme fumaça de vapor havia se formado ao nosso redor, e bem por ali, a água começava a ficar mais quente, devolvendo uma sensação de vida à minhas pernas. As bolas de fogo atingiram a água, afinal.  Estávamos são e salvos.
— WHITE! Você está bem? — Ele perguntou, puxando-me para cima e ajudando-me a sair da água.
— Acho que sim. — disse, meio grogue. — O que foi isso? — perguntei, ainda não entendendo como as pedras haviam ido parar no oceano e não em cima da gente.
— Aquele pokémon... — Black apontou para uma criatura minúscula, quase invisível no breu do litoral e que eu só enxerguei porque começou a faiscar feito fiação elétrica de casa antiga. — ... Ele nos salvou!
— Hã? — Tentei enxergar a miudeza no meio do mar negro, semicerrando os olhos em fendas para  tentar detectá-lo. Mas não foi preciso muito esforço. Black, que tinha curado o porre na marra, agora iluminava tudo com a luz de seu pokédex. E eu pude ver pequenas fagulhas contornando o corpo de uma criatura plasmática que flutuava sobre as ondas, um sorrisinho debochado na minúscula face.
— Um Rotom! — eu disse, reconhecendo a espécie do pokémon.
— Rotom? — Black, por outro lado, parecia não conhecer aquele pokémon. Por isso,  chegou mais perto com sua pokédex, e os dados começaram a aparecer na tela, quando uma voz mecânica leu o texto automaticamente.
"Rotom, o pokémon Plasma. Seu corpo altamente eletrizado é o permite entrar em aparelhos eletrônicos para fazer travessuras." — Foi tudo o que a Dex de Unova no modo Nacional pode nos dizer.
Neste exato momento, Rotom começou a flutuar ao redor de Black. No começo, eu não estava entendendo, mas então eu percebi que existia certa atratividade no pokémon fantasma pela pokédex. Ele tentava se comunicar com o dispositivo eletrônico disparando algumas fagulhas e centelhas, mas parecia insatisfeito. Não obteve resposta alguma, e por um momento, pude perceber que aquilo o deixou chateado. Por fim, Rotom desistiu e voltou a focar no vulcão, que continuava mandando lava pra tudo quanto é lado.
— Ele... Estava tentando possuir a pokédex! — disse Black.
— P-possuir?!
E foi então que eu reparei naquele olhar, aquelas faíscas percorrendo os olhos de Black. Aquela cara que ele fazia quando estava a fim de um pokémon.
— Estou a fim desse pokémon. — Ele disse.
— Eu sei. — disse eu, dando gargalhadas por motivo algum.  Então, consegui reunir fôlego o suficiente para dizer-lhe: — Capture-o!
— É o que vou fazer! — disse Black, já pegando uma pokébola  vazia em uma das mãos, e lançando a que continha Popplio com a outra. — Vaaaai, "Pop"!
O leão marinho deixou sua esfera sorridente, pronto para um desafio.
— Pop? — Perguntei, dando risada.
— É. — disse Black, fechando a cara. — Qual é o problema?
— Nenhum. — Por fim meu lado consciente conseguiu tomar o controle. — Parece que o Black continua sendo o Black, mesmo por trás de toda essa maquiagem.
Ele sorriu, mas nada disse. Estava agora concentrado no processo de captura do travesso Rotom, que não se intimidara nem um pouco quando viu Pop entrar em campo. E quando eu digo nem um pouco, é nem um pouco mesmo. Rotom interpretou a presença de Popplio como uma hostilidade, e logo iniciou o ataque, disparando uma rajada de eletricidade...
...que seria super efetiva, se Popplio não tivesse usado o Tackle como evasiva,  esquivando-se por completo do raio que atingiu a água.
Por sorte, todos já havíamos deixado os limites do mar quando o ataque acertou a superfície, ou teríamos todos sentido os efeitos do ataque.
Com instintos de um relâmpago, Black, que agora não fingia mais ser um iniciante, usou todo o conhecimento e agilidade que tinha para acompanhar uma batalha quando ordenou o próximo ataque de Pop.
— Pop, diminua a Defense dele com o Tail Whip!
O leão marinho começa a rodopiar no ar, elaborando uma dança de movimentos com sua cauda, que espalha um brilho suave pela costa, iluminando a água a seu redor de uma forma que Rotom parecia estar sendo afetado pelo próprio brilho, pois parecia estar ficando mais miúdo e mais fraco.
— Deu certo! — Comemorei ao ver as barreiras de Rotom caindo.
Mas, ao mesmo tempo em que isso acontecia, Rotom já elaborava seu próximo ataque, produzindo e liberando energia na forma de uma bola negra, potencializada pela penumbra.
— É o Shadow Ball! — Digo eu, reconhecendo o ataque tipo fantasma.
— Não se preocupe, Pop! Vamos cuidar desse Ataque! Use suas bolhas!
Popplio começa a produzir balões de água, que se unem para formar um único e grande balão, absorvendo a esfera negra de Rotom para seu interior e aprisionando-a.
— Neutralizou o ataque! — eu disse. — Amor, você é demais!
— Os créditos todos são do Popplio!
O leão marinho bateu as patas dianteiras, como se fossem palmas e saltou feliz pra dentro da água, que já não estava mais eletrificada.
— Ro Ro Ro Ro Ro Tom!
Rotom se irrita com Popplio, que até agora, não tinha levado dano nenhum, e dispara mais uma rajada de eletricidade, desta vez, com múltiplas direções.
Discharge! — Aquele ataque eu conhecia, e muito bem.
Mas Black, com toda a sua habilidade de Campeão, simplesmente ordenou:
Tackle!
E Popplio esquiva-se mais uma vez utilizando a investida para mover-se rapidamente de um lugar a outro, esquivando-se dos raios do Rotom, que ficava cada vez mais zangado.
— Vai, amor! Derrota ele! — Gritei, incentivando Black a ir a fundo na batalha. Até agora, ele só estava brincando. E quando se trata de derrotar o adversário, não importa o nível do pokémon que Black esteja usando ou o tipo ao qual ele pertence. Black enfrenta qualquer desafio com maestria, e faz bonito na hora de causar danos.
E lá vinha Rotom mais uma vez, atacando com Will-O-Wisp, um ataque de múltiplas bolas de fogo azul, como aquele que tem no fogão à gás, só que muito mais fantasmagórico do que isso.
As bolas em chamas voaram pra cima de Popplio da mesma maneira que a lava vulcânica tinha vindo em nossa direção. Claro que em dimensões bem maiores, mas mesmo assim, o Will-O-Wisp de Rotom parecia perfeito para causar bons estragos...
Black, no entanto, já lutara diversas vezes contra esse movimento e até mesmo já criara estratégias de uso para o ataque. Desse modo, aquilo era moleza pra ele. Tudo o que ele precisou dizer foi:
— Entre na água!
Popplio mergulha e as chamas caem sobre a superfície do mar,desfazendo-se rapidamente. E Rotom vai à loucura, rodopiando furiosamente pelo céu.
— Agora, Popplio! — Ele gritou, e Popplio voltou à superfície, dessa vez só com a cabeça de fora. — Vamos ver se minhas aulas de Move Tutor valeram a pena... Use o seu Water Gun, mas de um jeito diferente! Está me entendendo?
Popplio parecia confuso, então Black deu mais ordens.
— Tente pressurizar mais a água, mantendo a boca mais fechada ao mesmo tempo em que libera o dobro de água!
— Pop, pop!
E o leão marinho segue as ordens de seu treinador, fazendo exatamente como o mandado e como resultado...
Uma rajada de água com muito mais intensidade é liberada, atingindo Rotom por todo o corpo. O ataque ainda é potencializado graças ao Tail Whip anterior,e empurra Rotom pra dentro da água salgada.
— Pra que utilizar o Water Gun quando se pode fazer uso da Hydro Pump? — diz Black, se achando por seu êxito no tutorial.
SPLASH! Rotom salta de volta para a superfície, mas seu corpo está faiscando em grande quantidade. Havia tantas faíscas, que o tipo elétrico não conseguia absorvê-las com eficiência, entrando em curto circuito.
— Rot, rot, rot--
— Agora, Pop! Termine com mais um Hydro Pump!
Popplio dispara mais um jato de água altamente pressurizada, estourando como uma bomba, que joga Rotom brusca e violentamente contra a areia dura, compactada pelas ondas mais próximas. E o pokémon não se levanta mais...
— UHU! — Comemorei. Rotom estava fora de combate, o que significava que estava suscetível à captura.
— Vai, Pokébola! — Black joga uma esfera de captura, e esta engole o corpo de plasma de Rotom por completo, aprisionando-o dentro da bola.
O item então começa a se mover de um lado para outro, Rotom tentando escapar. Mas, como já não tinha mais forças para batalhar, também não tinha forças para fugir. E assim, a pokébola conclui a captura, disparando alguns brilhosinhos pela orla.
— Eu capturei... UM ROTOM! — Comemora Black, erguendo a pokébola à altura da cabeça.
E neste momento, um som estrondoso toma conta do lugar, como se o chão estivesse se abrindo. Era o vulcão enfurecido, pronto para mandar mais lava para os céus.
— Vamos dar o fora daqui. — disse eu.
— É uma ótima ideia. — Concordou Black calçando os chinelos e pegando a garrafa de vodka da areia.


~Sun

Naquela noite, dormimos em um hotel próximo à praia. Era tarde demais para qualquer coisa e depois de tudo o que passamos, incluindo uma viagem longínqua e demorada, um jantar a luz de velas a beira-mar e um pequeno incidente envolvendo um Rotom e um vulcão, não queríamos mais nada senão nos atirarmos em uma boa cama e relaxar, sem se preocupar com as obrigações do dia seguinte.
White já havia colocado sua camisola de seda (que eu mesmo havia lhe dado de aniversário) e agora escovava os dentes, pronta para se deitar. Era o momento perfeito para eu contar pra ela uma ideia maluca que martelava minha cabeça desde o momento em que deixamos nossa mansão isolada em Unova.
Há muito tempo atrás, eu resolvi sair em minha primeira jornada pokémon a fim de encontrar inspiração para publicar um livro. Acreditem, esse foi o motivo de eu ter saído por aí, sem rumo algum, desbravando Unova pelas entranhas, até encontrar White, Cheren e mais uma porção de amigos e transformar tudo isso em uma duradoura e próspera carreira de sucesso.
Porém, desde cedo, eu tinha resolvido que escreveria profissionalmente. Aliás, isso é muito comum em um país tão bem estruturado e desenvolvido como Unova. Somos incentivamos desde pequenos a passarmos nosso conhecimento adiante através de ferramentas como a publicação. Mas comigo era diferente. Eu não queria ser doutor, professor ou nada do tipo. Eu só escrevia por prazer. Ficção. E assim foi. Desde muito cedo, de forma independente e com grande ajuda e apoio de minha mãe, publiquei minhas primeiras novelas.
Mas, no fim, acabei me desviando de meu caminho como escritor. Acabei aprendendo mais e mais sobre os pokémon e me apaixonei por eles, de forma que nunca mais consegui ficar parado em uma sala para produzir qualquer texto que fosse. Depois que saí em minha jornada, minha vida ganhou ritmo, movimento, cores. Eu saí da ficção e passei a ser o protagonista de minha própria história.
E de qualquer forma, mesmo que eu resolvesse, de uma hora pra outra, voltar a me concentrar na escrita e publicação de um novo livro, não daria certo. As responsabilidades como Campeão são muitas, e eu simplesmente preciso estar presente em diversos eventos, reuniões, assembleias e discussões por todos os cantos, não só do país, como também de todo o mundo. Dessa forma, não tenho tempo ou mesmo paciência para exercitar meu cérebro em uma atividade tão prazerosa quanto escrever.
Entretanto, aquela poderia ser uma oportunidade de começar de novo. Talvez Arceus tenha me reservado aquela missão em Alola só para eu recolocar minha vida de volta nos eixos. Se isso não é uma dádiva, eu não sei o que é. De uma hora pra outra, sinto-me livre de todos os compromissos. Claro que me preocupo por estar deixando tudo pra trás, mas não pense que este não foi um dia feliz porque foi.  E muito.
Talvez seja a hora de eu me envolver em novos projetos literários.  Em projetos que façam eu me sentir um cara "normal" de novo.
Mas... Seria esse o momento para contar? Não seria mais fácil que eu colocasse primeiro no papel para depois anunciar? E se... Bom, não vou nem pensar nas possibilidades. Ultimamente, tudo o que eu venho tentando fazer com minha vida tem miseravelmente falhado, então... Sim. É melhor fazer tudo nos conformes. Tudo no seu tempo.
White de repente saiu do banheiro, esboçou um boa noite enquanto bocejava, com muita cara de sono. Esfregou os olhos e foi pra cama. Estava cansada, nem me esperou. Eu sabia que ela já estava adormecida meio segundo depois de tocar na superfície do colchão, então me sentei na beirada da cama e puxei minha mochila para perto. Ela estava pesada. Carregava ali dentro bem mais do que vocês podem imaginar.
Mas o que retirei de lá foi um laptop que havíamos sequestrado do escritório de finanças da liga pokémon juntamente com óculos para descanso. Imediatamente, iniciei o sistema e, depois de tudo ligado, escolhi um diretório escondidinho, para que ninguém pudesse ver e estragar esse momento, e criei um novo documento de texto, que nomeei como "Menina-Mulher"
Comecei a escrever, parando uma vez ou outra para lavar o rosto ou para me recuperar de mais um pequeno tremor que abalava a ilha.
Eu estava disposto a recuperar o meu verdadeiro eu. E esse momento começava agora. Com um Black que ninguém jamais viu.


***

Pela manhã, eu estava morto, mas precisava me levantar. Era um dia novo e tínhamos muito o que investigar. Nossa tarefa diária era tentar descobrir o que podia ter acontecido com o Campeão local. Não podíamos ficar parados, apenas absorvendo as informações que as pessoas nos davam e caçando depoimentos. Já estava na hora de agir. Afinal, depois dos acontecimentos do último anoitecer,  sabíamos que tínhamos de ser rápidos, ou Alola seria arruinada antes mesmo que pudéssemos descobrir a causa de tudo aquilo.
O fato era que estava quente, mesmo às 7 da manhã, e isso me dava energia para continuar. Pegamos nossas coisas, passamos o cartão de crédito no hotel e saímos, rumo a um novo local para ficar. Decidimos seguir pela rua asfaltada para chegarmos na próxima cidade, onde havia um porto e onde poderíamos comprar passagens para uma viagem de barco até as outras ilhas.
A brisa trazida pelo oceano ainda era um pouco gelada, mas o sol já estava alto no céu, e só de caminhar sob sua luz, já dava vontade de atirar as roupas longe.
Não cheguei ao ponto de fazer isso. Paramos e nos escondemos atrás de alguns arbustos quando vimos, ou melhor, ouvimos uma conversa muito estranha logo à nossa frente. Era Eclipse, o garoto que ficara com o Litten no momento em que pegamos nossos iniciais Aloianos. Estava discutindo com alguém. Uma garota extremamente pálida, cabelos platinados e uma voz incrivelmente enjoada.
Estavam na calçada, em ritmo de discussão. Se continuássemos caminhando naquela direção, mais tempo menos tempo, acabaríamos nos esbarrando com eles e interromperíamos a conversa. Por isso, nos agachamos e escutamos toda a conversa, sem causar interferência alguma.

"Você não pode contar nada! Entendeu!?" — disse a voz feminina abusada.
"Mas..." — Eclipse foi falar, mas foi interrompido. Ela colocou o dedo indicador sobre a boca dele, calando-o.
"Eu estava com o Ele e agora eu volto sozinha! Como que eu vou explicar isso?"— Pergunta ela.
"Mas o que aconteceu?" — Eclipse parecia bastante apreensivo.
"Aconteceu que eu fui fraca. E agora preciso resolver isso sozinha. Preciso recuperá-lo eu mesma." — disse a menina, que vestia um chapelão e alvas roupas de boneca, combinando com sua pele branca como leite e formando um completo contraste com o bronzeado de Eclipse. — "Por isso..." — Ela continuou. — "Nem um pio. Kukui não pode saber que eu estou de volta. Ele arruinaria tudo."
Opa. Palavra-Chave detectada. Kukui não poderia saber do que? Como assim? O que eles estavam escondendo de meu primo? Será que aquilo tinha a ver com os estranhos acontecimentos que vinham cercando a região?
Peguei minha pokédex e, de trás do arbusto mesmo, tirei não uma, mas várias fotos dos dois conversando. Aquilo precisava ser registrado.
Como Eclipse não parecia satisfeito com a resposta, a menina então enrolou:
"Eu... Tenho certeza de que conseguirei me resolver desta vez! Eu... Farei tudo certo. Aliás... Foi por isso que eu voltei à Ilha. Tem uma coisa aqui na Ilha MeleMele que me ajudará a... Bem..." — Ela pigarreou, como se fosse dizer uma coisa, mas logo desistiu. E então remendou: — "Trazer o Campeão de volta. Você quer que ele volte, não é?"
"S-sim." — Eclipse sentiu-se desconfortável quando ela disse aquilo. Era visível, mesmo de longe.
"Então colabore." — Ela disse.
"Como?" — Perguntou o adolescente.
"Ficando de bico calado. Quando tudo isso acabar... Você terá sua recompensa." — Ela virou as costas para Eclipse, o chapelão e os cabelos escorridos cobrindo boa parte de sua metade superior.


"E por que eu deveria--" — Eclipse começa a falar, mas é interrompido.
"Confie em mim." — A garota o corta. — "A Lillie aqui sempre cumpre suas promessas."
E vai embora, certa de que Eclipse ficaria quieto.

Era o momento parar agir. Saímos discretamente de trás dos arbustos enquanto Eclipse estava de costas, assistindo a garota pálida ir embora e nos aproximamos.

— AI! Que susto! — Eclipse dá um pulo quando nos vê, logo perguntando: — O que fazem por aqui?
— Viemos à praia! — disse White, que levantou suas sacolas de compras para mostrar a Eclipse. em um momento oportuno, como se aquilo fosse uma sacola cheia de coisas pra levar pra areia.
— Ah! Claro! Hoje o mar está calmo. — disse ele com frieza. — Eu vou indo treinar. — Então completou. — Já consegui seis parceiros desde ontem!
— Já formou um time? — Perguntei, espantado.
— Já. Você não?
A verdade é que passamos o último dia nos preocupando com coisas mais importantes. Se de fato estivéssemos em uma jornada, talvez já estivéssemos no mesmo ritmo que Eclipse. Mas não poderíamos dizer isso pra ele, afinal, daquele momento em diante, o menino se tornou nossos principal suspeito.
— Tenho 5. — Apressei-me em mentir.
— Cinco? — Eclipse esboçou um sorriso. — Vamos batalhar de novo, então!
— Ah, desculpe! Estou indo pra praia com a W-- Moon!
— Claro, claro. — De repente, o olhar do garoto elucidou-se e ele se ergueu as mãos, em defesa. — Não vou atrapalhar vocês! Até a próxima!
E se afastou rapidamente, seguindo pelo asfalto e deixando eu e White a sós.
— O que foi isso? — Perguntei.
— Muito estranho. — disse White. — Ele já tem um time completo! Se de fato for necessário nos preocuparmos com ele... Temos que cuidá-lo desde já, ou ele vai se tornar um treinador tão bom quanto você antes que possamos perceber!
— Tem razão. Mas o que vamos fazer? — Perguntei sem muita certeza quanto aos nossos próximos passos. Eclipse era um treinador em ascensão, afinal. E por mais que tivesse iniciado sua jornada ainda ontem, era muito fácil conseguir pegar pokémons selvagens, da mesma maneira que era fácil batalhar contra outros treinadores. Uma hora ou outra, ele poderia nos superar em questão de poder e habilidades, e isso acontece muito, muito rápido.
— Bom, primeiro você vai ter que aprender que o meu nome é Moon! — disse White, zangada por eu quase ter cometido um desfalque, ao por pouco não chamá-la pelo verdadeiro nome.
— É, tem razão. Mas... O que podemos fazer para evitar que... Aquele garoto, seja lá quem for...
— Temos que implantar um espião, é óbvio! — disse White, mais do que depressa.
— Um espião?
— Algum pokémon que possa segui-lo e nos passar informações! Seria perfeito! Que tal o Rotom? Ele é um tipo Fantasma, não é?
— Um fantasma brincalhão e eletricamente bem visível! Você viu o que o pokédex disse... Ele tem uma personalidade um tanto... Travessa. Isso poderia acabar nos prejudicando.
— É, você tem razão.  Então eu... Vou achar outro pokémon por aí que seja capaz de fazer isso e vou capturá-lo! Tenho certeza de que Alola tem muitas espécies que não são comuns em Unova! Aliás... Só os pokémon nativos de Unova são comuns em Unova... Enfim... — Ela disse, já indo na mesma direção em que Eclipse seguiu. — E você... Leve essas informações para Kukui! Tenho certeza de que ele ficaria agraciado em saber o que estão planejando pelas costas dele!
— Certo! — Peguei meu pokédex e revi as fotos que eu havia tirado. Estavam com baixa qualidade, mas dava pra ver claramente o rosto de Eclipse e da menina. E por falar em menina... — E A GAROTA? — Gritei para que White me ouvisse. Já estava longe agora... Seria melhor a seguirmos de uma vez, ou poderíamos nunca mais a encontrar.
— Vá ao laboratório! — Ela disse, e então compreendi. Se a menina conhecia Kukui, meu primo também a conhecia, e consequentemente, poderia nos contar quem ela é.
E assim, nos despedimos, com um triste aceno de mãos, à distância.  White continuou em frente para a rota mais próxima a fim de conseguir uma captura e eu regressei todo o caminho, de volta para o laboratório de Kukui. As coisas pareciam estar fluindo, afinal.


~Moon

Um espião... Essa era uma ideia que já me passara diversas vezes pela cabeça, e não estou falando só daqui. De Alola. Uma mulher esperta como eu tem que se manter viva dentro de um relacionamento. Eu não posso me anular em momento algum. Por isso, sempre tomei as rédeas da situação. Sempre trabalhei, me esforcei e sempre fiz de tudo para dar o meu melhor como ser individual. Afinal, as boas relações provém da participação efetiva de todos o envolvidos. E não estava sendo o meu caso.
Vamos nos situar na linha do tempo. Antes de todo o drama do meteoro e blá blá blá, Black e eu estávamos vivendo nossa fase de ouro. Conquistamos títulos e estávamos os mantendo com facilidade. Porém um dia, nos cansamos disso, e Black foi esperto. Resolveu sair em uma segunda jornada pokémon por Unova, dessa vez disfarçado como "Touya", um treinador iniciante. Exatamente como estamos fazendo aqui em Alola.
Só que, nisso, eu fiquei sozinha, tomando conta de todo o país. Ele... Praticamente me abandonou por algum tempo e eu não sabia onde ele estava, o que estava fazendo, com quem andava...  Eu não suportava mais aquilo. Não queria ser a amélia da vez. Então eu tomei atitude e agi. Contratei cinco espiões profissionais para me passarem informações concretas e sigilosas sobre Black.
Felizmente, meu marido sempre foi fiel e nunca me traiu. Estava apenas voltando à ativa no ramo dos ginásios. E felizmente, ele nunca descobriu nada sobre os espiões.
Mas o fato é que, depois do ocorrido, ganhei certa experiência com espionagem. Por isso, eu sabia exatamente o que dizer quando Black me perguntou o que deveríamos fazer com Eclipse. Porque eu sabia que se mantivéssemos algo ou alguém infiltrado no dia a dia dele como treinador, descobriríamos, com certeza, informações muito relevantes. Aliás, descobriríamos praticamente tudo o que por ventura estivesse acontecendo.
E que jeito melhor de fazer isso do que mandando um pokémon sorrateiro para fazer o trabalho?
Assim, deixei a área urbana e adentrei na primeira rota terrestre que se seguia. Composta por aclives e declives, e de aparência íngreme, não se tinha muito o que fazer por ali senão capturar alguns poucos Pokémon que moravam no arvoredo próximo.
À primeira vista, tudo o que consegui visualizar foi matinho, grama da altura de meu quadril, muitas árvores e é claro, treinadores chatos que não tem mais o que fazer senão pedir pra batalhar. Vasculhei rapidamente a graminha nada convidativa em busca de pokémon selvagens para capturar e logo de cara encontro uma família de criaturinhas adoráveis tirando um cochilo. Na verdade, uma mamãe felpuda e dois pequenos filhotes, os três agarrados à pedaços de madeira semelhantes a tambores.
Aquela espécie era muito famosa no exterior por ser realmente muito fofa e muito preguiçosa. Eu sabia seu nome e tipo de cor. Eram Komalas e pertenciam ao tipo normal, sendo muito comuns em regiões tropicais como Alola. Mas, não eram o tipo de pokémon que eu precisava. Infelizmente.
E fora o detalhe de que eles estavam em um sono tão profundo que chamá-los para uma batalha seria judiaria, sem falar que eu estaria prejudicando a família, separando-os ao capturar só um e não os três.
Então peguei minha pokédex não para analisar as informações dos monstrinhos, mas para tirar uma foto daquele lindo momento em família. Eu tinha certeza de que essa viagem para Alola me traria ótimas fotografias e melhor ainda: ótimas recordações.
Mais adiante, pude verificar algumas poças d'água e lá dentro, burbulhavam Luvdiscs com seu pleno vigor. Imediatamente, lembrei-me de minha Alomomola, um pokémon que mantém estreita relação física com Luvdisc. Até me passou pela cabeça uma vontadezinha aguda de capturá-lo, mas então me lembrei da importância de encontrar um pokémon espião o mais depressa o possível.
Luvdisc até poderia ser um espião. Ele é bastante ágil. Porém, só funciona em ambiente aquáticos, visto que não possui membros para se locomover fora d'água. Já a família de coalas que eu acabara de encontrar parecia dormir muito, e não possuem características essenciais, como velocidade e capacidade de camuflagem.
Então segui pelo matinho, catando pokémon por entre a grama alta. Ou melhor, selecionando as criaturas que apareciam, sempre prezando as qualidades que um bom espião deve possuir. E então, depois de muito esforço...
— Ahá! Você é o pokémon perfeito para o que eu preciso... Gastly!
Uma bola de gás flutuante capaz de ficar invisível, com incrível agilidade no voo. Esse era Gastly, um tipo fantasma e venenoso.
— Gas!
Peguei minha pokédex em modo nacional e dessa vez a utilizei para escanear o pokémon que se encontrava à minha frente.
A voz eletrônica anunciou: "O pokémon gás, Gastly, nasce dos gases. Qualquer um que seja tragado por sua espessa camada de gás desmaia, uma vez que esse vapor contém veneno."
— É... É de você mesmo que eu preciso. Vaai, Rowlet!
Peguei e joguei a pela primeira vez a pokébola de Rowlet, o pokémon que eu tinha ganhado de Hala, desde o momento em que me fora entregue.
A corujinha saiu com cara de sono, não estando pronta para batalhas, porque aparentemente, nunca fora treinado para tal. Seu nível não passava do 5.
— Row...
Ela piou baixinho, meio mole.
— Anime-se, Rowlet! Vamos capturar um pokémon! — Exclamei em alto e bom som, a fim de motivar Rowlet a se erguer. Mas não foi preciso muito.
Ao ver o ataque de Gastly se aproximando,  Rowlet voou como um raio, a fim de se escapar da enorme "lambida" proporcionada pelo movimento tipo fantasma Lick.
— Ele é rápido! Muito rápido! — Observei. Gastly estava tentando acertar Rowlet com a língua, enquanto a ave tentava se esquivar múltiplas vezes, ao dar pequenos pulinhos para trás.
Aquele era o momento certo para atacar. Tínhamos que mandar Gastly pra longe, então gritei: "Leafage"! Rowlet pousou em terra firme e girou o corpo, enviando uma leve brisa de folhas afiadas pra cima de Gastly.
O tipo fantasma é pego de surpresa e recebe o dano, mas eu sabia que não poderia me basear só em ataques tipo grama, porque sua efetividade contra Gastly não passava de  ½.
Rapidamente, a bola de gás se reergueu do susto e começou um novo ataque. De seus olhos espirrava uma rajada de energia negra, delineada por traços vermelhos.
— Evasiva! — Gritei, e Rowlet me obedeceu dando um super voo e contornando Gastly. Mas a cabeça flutuante foi rápida e se virou, atingindo a ave com seus raios óticos.
— Piu!
Rowlet se estatelou no chão, levantando muita poeira e penas.
Precisávamos diminuir aquele ataque, pensei. Então ordenei:
— Use Growl! Agora!
À distância, Rowlet gritou, emitindo ondas de som que ultrapassam a barreira de gás de Gastly e diminuem seu stat de Attack em um estágio.
— Ótimo. — comemorei.
Mas aquele barulho todo só havia irritado o fantasma, que decidiu de investir em uma vingança. Da testa do bichano, surge uma luz cor-de-rosa, que se configura em uma onda de vibrações telecinéticas.
De repente, Rowlet flutuava no ar, sem mover um músculo. Estava sendo erguido pela força da mente de Gastly, em uma dolorosa compressão que o esmagava de fora para dentro, em todos os cantos do corpo.
Nestas alturas do campeonato, Rowlet já se encontrava na metade do HP, em uma batalha contra um oponente mais forte e aparentemente em vantagem.
Então peguei minha pokédex novamente para analisar os movimentos da ave, que eu ainda não sabia  completamente de cor. Fora o Leafage e o Growl, ele só tinha mais um no momento, e era minha única esperança de virar o jogo:
— Peck!
Do tipo voador, o Peck consistia em um ataque sorrateiro de contato físico, causando 1x de damage em um oponente como Gastly. Dano comum, mas mesmo assim, era nossa maior vantagem no momento.
Do outro lado do campo, Gastly reagia instintivamente. Ao ver Rowlet avançando, a cabeça gasosa começou um novo ataque, também físico. Lá vinha o golpe tipo noturno conhecido como Payback. Gastly avançava pra cima de Rowlet, da direção oposta.
Assim, aconteceu um confronto de frente à frente. Os dois colidiram um com o outro, ambos sendo jogados para trás com a força do impacto.
Rowlet entrara no vermelho e uma sirenezinha infame já bombava em minha cabeça. Era a pokédex emitindo um aviso de que o meu pokémon estava próximo do fim.
Mas em compensação, Gastly também estava mais abatido. Já não flutuava mais tão alto e era possível ver arranhões em sua superfície sólida.
— Rowlet, eu quero que me dê o seu melhor! — disse eu, motivando Rowlet.
O pokémon voador, já ferido, girou seu pescoço 180º e me encarou com uma expressão que significava "Vadia, você deveria calar essa boca".
"Quenga estúpida".
Eu sabia que Rowlet já estava ferido e zangado por não conseguir abater um adversário tão forte quanto Gastly, mas eu precisava contar com a colaboração dele para aquela luta.
E assim, peguei em minha bolsa à meia espalda um item que com certeza seria muito útil na batalha.  Eu não tinha as habilidades como Move Tutor que Black tinha, mas eu tinha dinheiro e era isso o que importava.
Assim que consegui Rowlet com Kukui e o Professor Hala, fui correndo comprar alguns materiais úteis para seu treinamento. E uma Technical Machine do tipo Grama era essencial.
Encaixei o mini disco em minha pokédex, que fez uma rápida leitura, quando a mesma voz eletrônica  de mais cedo começa a dar instruções para Rowlet:
"Focalize sua energia em frente à sua boca, concentrando todo o seu poder no movimento de rotação. O golpe Energy Ball não poderá ser lançado enquanto a energia concentrada não for suficiente para rotacionar como um redemoinho. Pratique a mira e então dispare."
Rowlet ouvira tudo com atenção. Estava ainda com a cabeça virada pra trás, me encarando, quando a voz mecânica parou.
Então, muito rapidamente, Rowlet fez o que o TM ordenou. Abriu bem o bico e concentrou sua energia tipo grama ali, naquela região, fazendo-a rodopiar e crescer enquanto Gastly se aprontava para mais um ataque de língua.
— Agora! — Quando Gastly estava próximo o suficiente,  e a esfera já tinha atingido tamanho considerável, ordenei que Rowlet lançasse seu mais novo ataque. E assim, uma enorme explosão acomete a extensa língua do fantasma, transformando-a em churrasquinho.
Gastly começa a correr desesperado, de um lado para outro, a língua preta.
— Agora! Termine com o Peck!
Rowlet energiza seu bico de dentro pra fora e investe contra Gastly, desferindo-lhe poderosas ferroadas. No que o fantasma desestabiliza do voo, Rowlet para de atacar.
A fumaça e os gases que cobriam o tipo venenoso amorteceram a queda, mas de nada adiantou, pois os olhinhos de Gastly já estavam revirados, indicando sua derrota.
Imediatamente, peguei uma Pokébola Lua, que eu sabia que não teria nenhum efeito adicional em Gastly, mas mesmo assim, a lancei, com a intenção de personalizar meu time.
A bola chicoteou no corpo de Gastly, imediatamente sugando o seu gás para dentro e então se fechando. Aprisionado e desacordado, Gastly não tinha condições de fugir, e a  bola rapidamente disparou seus brilhosinhos e faíscas, indicando que a captura havia sido concluída.
— Yeah! Conseguimos!
Com muita felicidade, dou um salto e ergo minha mão esperando que Rowlet desse um tapinha, mas não obtenho resposta alguma.
Aliás, o pokémon estava muito estranho. Alguma coisa havia acontecido. Rowlet se encontrava encolhido, a cabeça embaixo de uma das asas.
— Rowlet? — Chego bem pertinho e acaricio as penas da ave, quando de repente...
— ZzZzZzZ!
A ressonância torna-se audível e eu começo a rir sozinha, me dando conta de que Rowlet já estava ferrado no sono, peguei ele no colo e o aconcheguei, prevendo uma tempestade que começava a se formar acima da ilha, saí a procura de um abrigo antes que a chuva começasse a cair.

~Sun

A subidinha quase me matou. Parece que a vida como Campeão me tornou mais sedentário. Antigamente, não tinha fronteira que eu não pudesse cruzar, ou obstáculo que pudesse me barrar. Hoje, me sinto um velho, ofegando por fazer uma simples caminhadinha. Mas a viagem por Alola ia me amaciar, disso eu tenho certeza. 
Se descobríssemos mais mistérios e tivéssemos mais suspeitas, como o que acabara de acontecer com o caso do Eclipse, eu tenho certeza de que teríamos que ser ágeis, não só em compreensão, mas como também em deslocamento físico. Assim, tomei fôlego e enfrentei mais uma subida, passando por vários totens durante o trajeto.
Quando finalmente cheguei ao topo, avistei a construção com um telhado em V. O laboratório.  Precipitei-me para a porta quando dou de cara com Kukui, que vinha saindo.
— Ah! Bl-- Sun! Eu estava mesmo indo atrás de você! — disse Kukui, espiando ao redor para ver se ninguém mais estava ouvindo.
— Temos que conversar. — eu disse.
— Aqui não. — E então começou a sussurrar: — Meu pai está lá dentro com alguns convidados. Vamos pra minha casa.
— E onde é? — Perguntei, lembrando-me de que eu nunca tinha ido lá.
Kukui aponta para o além, lá naquela casinha longínqua que ficava bem próxima à praia onde White e eu quase fomos incinerados pelo vulcão.
— Fala sério!? É lá?! E... Eu vou ter que descer tudo isso de novo?
— Está enferrujado, primo? — Kukui dá uma risadinha debochada.
— É claro que não!
Desci o caminho todo ao lado dele, sem reclamar.

Chegando lá, percebo uma grande quantidade de remendos no chalé. Mas era um lugar adorável. Tinha um telhado verde, paredes da cor natural da madeira e uma cerquinha avermelhada que White iria adorar.
— É aqui! — Informa Kukui. — Ahn... Se importa? — Ele pergunta, fazendo com o dedo para eu me virar e não ver ele tirando a chave de debaixo de uma tábua solta. Como se eu fosse querer entrar lá e roubar alguma coisa... u.u
Assim que a tranca destravou, adentramos na residência, bem a tempo de escapar de uma enorme tempestade. Lembrei de White, será que ela havia conseguido seu espião? Ou estaria naquela chuva ainda à procura do Pokémon ideal? 
Do lado de dentro, a construção parecia ter 3 vezes o tamanho do lado de fora e Kukui tinha uma mobília realmente bonita, tudo arrumadinho e no seu devido lugar. Fiquei imaginando se ele tinha namorada.
— Seja Bem-vindo a "my place"! — Diz ele, indicando a mesa para nos sentarmos. — E aí? Sobre o que precisamos conversar?
Peguei minha pokédex e mostrei as fotos que tirei de Eclipse e sua Confidente.
— É Lillie... Ela... Está de volta?
— Está. — Disse eu, como se a conhecesse. — E ela disse pra não te contar. Aliás... Ele disse isso pro Eclipse. Disse que tinha feito muita abobrinha e que tinha pisado na bola, e que agora precisava consertar isso antes de dar as caras publicamente.
— Ela... Ela foi com o Campeão na expedição! Ela... Estava atrás dos segredos de Solgaleo e Lunala assim como o Campeão!
— Ela disse isso também. — Afirmei. — Disse que só voltou porque precisava de alguma coisa que estava aqui da ilha. E que seria muito estranho voltar sem o Campeão. E não queria que Eclipse te contasse isso por alguma razão.
— Hmm...
Kukui ficou pensativo.
— Quem é ela, Kukui? Quem é essa garota?
— Lillie é minha assistente.
— Oi? Sua assistente?
— É. Ela é uma garota um tanto misteriosa... Chegou aqui querendo ser minha assessora por motivos pessoais. Desde então, ela tem devorado todos os meus livros, com uma velocidade impressionante e estudado dia e noite sobre os mistérios de Alola! Estava tudo certo para ela usufruir de um grande projeto de pesquisa que meu pai e eu desenvolvemos durante anos: a Pokédex Viva!, quando ela simplesmente se recusou a sair em uma jornada, alegando que desgosta das batalhas pokémon e continuou como minha assistente. No entanto, no momento em que aconselhamos o Campeão a seguir em uma expedição para achar os deuses,  ela mais do que depressa se ofereceu para ir junto. Como Lillie tinha sido uma boa aprendiz, deixei-a ir.
— E agora ela volta, misteriosamente despreocupada com o fato de estar sozinha e não acompanhada do Campeão... Hmm... — E que história é essa de Pokédex Viva?
— Ah! Isso? É um projeto que Mestre Hala e eu viemos desenvolvendo durante muito tempo. É chamada, na verdade, de Rotom Pokédex e tem esse nome porque é a combinação de uma tecnologia muito avançada com o pokémon Rotom, que é capaz dese infiltrar em aparelhos eletrônicos! É a nova geração de pokédexes, pra falar a verdade, mas ela não fica completa até que Rotom esteja dentro dela.
— E por falar em Rotom... Lillie tinha um. — Prossegue Kukui. — Ela o capturou sozinha para nos ajudar a testar a pokédex. Entretanto, nós tivemos que separar o pokémon do aparelho quando ela decidiu que iria com o Campeão. Ela levou o Rotom e nós ficamos à deriva, só com o dispositivo mecânico.
— Você quer dizer... Um Rotom como esse?
Mexo em meu cinto e retiro de lá uma pokébola, contendo o pokémon que eu havia capturado na noite anterior.
— Exato. — disse Kukui impressionado. — Onde você o encontrou? Não existem Rotoms em Unova e eles são raros até mesmo em Alola!
— Ele nos salvou ontem à noite. Estávamos, White e eu, na praia, quando o vulcão começou a expelir lava pra tudo quanto é lado. Então eu resolvi o capturar.
— Entendo... — Kukui ainda estava pensativo. — Deixe-me verificá-lo.
Ele pega a pokébola de minha mão e a leva até a cozinha. De cima da geladeira, ele retira uma caixa e de dentro dela, uma pokédex vermelha.
Rapidamente, ele liga o aparelho e o usa para analisar o pokémon de dentro da pokébola.
— Huh... O que você andou fazendo com ele? — Kukui pergunta.
— Nada. Porquê? Eu só o capturei e depois o mantive na pokébola. Há alguma coisa de errado?
— Sim. Os movimentos dele... DischargeShadow Ball, Thunderbolt e Will-O-Wisp... O único que ele não aprende via TM é o Discharge, ou seja...
— Esse Rotom foi abandonado por algum treinador! — Completei, tendo plena consciência de que um pokémon selvagem vive na natureza e não tem contato com nenhum TM, a não ser que more em uma loja de conveniência. Sendo assim, estava mais do que óbvio que aquele Rotom era treinado, mas havia sido abandonado, porque senão, minha pokébola não funcionaria e eu não conseguiria capturá-lo. —Será que é da Lillie? — Pergunto. Se a garota estava em MeleMele, era bem provável que aquele pokémon raro fosse o dela.
— Só temos um jeito de saber.
Kukui atira a pokébola para cima e de dentro dela sai a minúscula criatura rodeada por plasma,
— Rou!
Imediatamente, Rotom se aproxima de Kukui, dando-lhe um abraço que o eletrocuta na hora. 
— Ai... Meus ossos...
— Parece que era mesmo o Rotom da Lillie! — digo eu, com medo de encostar em meu primo e levar um choque também. 
— ROOOOOOOOU!
Nisso, Rotom tem um ataque ao ver a pokédex viva sobre a mesa. E imediatamente, o pokémon se funde com o aparelho, explicando o porquê do nome.
A pokédex ganha braços e um rosto, o de Rotom, passa a aparecer no dispositivo.
— Bom, parece que ele gosta mesmo de se infiltrar em aparelhos eletrônicos... — Observa Kukui. — Se o capturou, ele é seu agora Black. Leve esta pokédex também. 
— O-obrigado. — Kukui me entrega o aparelho e o recebo de muito bom grado. Se aquela era uma pesquisa "nova" de Hala, significava que poucos treinadores tinham aquela pokédex, mesmo em Alola. E seria um grande prestígio eu, como Campeão de uma Liga Regional e Dex Holder de carteirinha, obter uma daquelas.
— "Indique o local e eu o guio!"
Quase tenho um infarto, e quase deixo a pokédex cair. Ou melhor, eu de fato a derrubo, mas ela fica flutuando. Quando Kukui disse que um pokémon podia habitar um aparelho com a pokédex, eu não sabia que ao entrar no dispositivo, ele poderia falar, daí o motivo do susto.
A voz de Rotom era igual a de uma criança. Um menino, de cinco ou seis anos de idade, só que bastante mecânica, como se tivesse sido gravada.
— Puxa... — Foi o que consegui dizer, boquiaberto.
— Incrível, não? A Rotom Pokédex te mostrará o caminho pelo qual percorrer baseando-se em suas conversas! Além disso, ela trará muitas informações sobre os pokémon, trabalhando também com a tradução da fala deles e o mais importante de tudo: Você poderá conversar perfeitamente com Rotom, como se ele fosse uma pessoa. Assim, ele te dará dicas durante as batalhas para aperfeiçoar seu desempenho.
— UAU! Eu... Não tenho palavras! Kukui, essa invenção... É realmente... EXTRAORDINÁRIA! Você... Vai dar essa pokédex pra mim mesmo?
— Eu sei que sou demais! - Gaba-se o Pokémon, mas sendo ignorado pelos dois humanos.
— Bom... Tem uma condição.
— E qual é? — Pergunto. Numa hora daquelas, eu topava qualquer coisa pra ter uma belezinha daquelas só pra mim.
— Quando regressares a Unova, divulgue a pokédex! Hala não quer que isso vaze, mas eu estou louco para receber os holofotos!
— E você terá! E MUITOS! Kukui, essa é a invenção do século! Vai revolucionar o modo como enxergamos as pokédexes! Elas... Serão como nossos próprios poké-mordomos!
Isso aqui não é You-kai Watch, mané! — diz Rotom, irritado. — Eu não vou servir drinks à ninguém.
E deu um choquezinho de leve em mim, embravecido.
— Ué... Não doeu! — Digo, percebendo que a força de Rotom estava reduzida dentro da pokédex.
— É... Nós estávamos testando a capacidade do Rotom em batalha quando Lillie o levou embora. Na verdade, parece que os atributos dele ficam um pouco reduzidos nesta forma. Mas ainda estamos testando. Bem, estávamos, já que não temos mais um Rotom. Mas você, Black, poderá sair por aí, por toda a Alola, usando, testando e nos relatando como está sendo a experiência com a Rotom Dex! O que você acha?
— Eu acho Magnífico!
— Então tome esta como sua. E lembre-se de divulgar o meu nosso projeto lá por Unova!
— É claro, Kukui! Não o deixarei na mão. Agora, se não se importa... — Tento guardar Rotom, mas o pokémon me dá outro mini-choque e continua flutuando ao nosso redor. — Parece que ele não gosta muito de bolsos!
Queria ver se você ia gostar de ficar dentro de um saco ao lado de outro saco! - Rotom Dex poderia ter a voz de uma criança de 5 anos, mas aquelas palavras não eram nem um pouco inocentes.
— É, vai ter que deixar ele ao seu lado! — Informa Kukui.
— É, fazer o que? Pelo menos vai ser bom que ele me ajudará com as estratégias de luta!
Eu posso até ajudar, mas milagre eu ainda não faço!
— Eu tinha esquecido como ele é irritante. - Informa Kukui, dando as costas ao Pokémon, apenas para levar um pequeno choque, mas que consegue levantar seus cabelos.
Dou risada e Kukui me olha zangado.
— Vai rindo, mas lembre-se que ele vai ficar 24 horas contigo.
— Mas , mudando de assunto... — digo eu, antes que me esquecesse. — Você disse que queria falar comigo quando nos esbarramos lá na porta do laboratório! O que era?
— Ah. É que... Sumiços vem acontecendo.
— Sumiços?
— Exato. Sumiços por toda a região de Alola. Mas... São sumiços muito estranhos! Nossos líderes religiosos e anciãos... Estão todos desaparecendo. Todos.
— Como assim?
— É... Eles estão desaparecendo. Mas isso é muito esquisito... Não se parece em nada com os desastres naturais que vêm acontecendo em Alola! É como se... Como se alguém os estivesse raptando para obter alguma informação sobre os mensageiros do sol e da lua!
— Você quer dizer... Alguém tentando pegar Solgaleo e Lunala?
—  Solgaleo, lendário Pokémon da região de Alola, alvo de muitos mistérios, segundo as lendas  locais, é o emissário do Sol. Lunala, lendário Pokémon da região de Alola, alvo de muitos mistérios, segundo as lendas  locais, é o emissário da Lua.
Olho interessado para a Pokédex viva, que parecia bem informada.
— Isso. E tem também outro desaparecimento.
— Outro. Quem sumiu?
— Caitlin.
— Aquela mulher?
Me lembrei da líder de ginásio. Era uma mulher de sorriso gentil, por trás de um óculos escuro e uma saia compridíssima em um tom de amarelo vivo, estampada com flores de Alola, os tais de hibiscos.
— Ontem à noite... Ela estava em missão nos arredores da ilha, mas perdemos o contato com ela. Encontre-a, Black!  Ela tem uma relação muito estreita com a Lillie! Se acharmos Caitlin, poderemos saber o porquê de a Lillie ter voltado sem o campeão e o porquê de ela querer esconder isso de mim!
— Certo.
— Black?
— Oi?
— Se cuida.
E assim, me despeço de meu primo, retornando agora pelo caminho asfaltado, em direção à cidade grande, ao encontro de White.

~Caitlin

— Eu não quero fazer isso — eu disse com a voz bem baixa e leeeeenta, abrindo e fechando o alicate várias vezes, para dar mais drama à cena. — Mas, se não me contar... Terei de lhe arrancar mais alguma coisa... Os dedos já acabaram, que tal a mão agora? Ou um braço? Largo a alicate e pego uma faca e passo pelo braço nu e moreno do ancião.
— N-não, não! Tá bom, tá bom! E-eu falo! — Aquela foi a gota d'água para ele. O velho se borrou todo, com medo de perder mais alguma parte do corpo. — F-foi há cento e cinquenta anos! — ele começou a dizer.
— Cento e Cinquenta? C-como? Ah, claro.  Era de se esperar que feiticeiros como vocês pudessem burlar a morte!
— N-não... Nós pedimos por isso. Pra Eles!
Ele tentou apontar para o portal atrás de mim, com desenhos dos antigos deuses entalhados no cobre. Então continuou, sob a ameaça de perder mais sangue.
"Há cento e cinquenta anos atrás, nos reunimos na praia de MeleMele, em uma noite sem estrelas, e então... Tivemos de fazer. Eu não sabia o que aconteceria até que aconteceu. Amarramos uma mulher e um homem em um totem à beira-mar. "
— Uma mulher e um homem?
— É. E-eles... Eles gritaram muito, mas tivemos de fazer... Precisávamos da bênção dos deuses... — Contou o velho, com um profundo pesar. — O homem foi primeiro.... Ele era muito magro, os ossos aparecendo sob a pele. Eu nunca mais me esqueci do rosto dele, ou dos gritos... Ou do... gosto...
E o velho começa a se debulhar em lágrimas.
— Prossiga.
— O matamos. Com punhais. — As lágrimas transbordavam pelo rosto do ancião. Parece que o peso da consciência tinha feito todo o trabalho. Eu não precisava mais de ameaças. Ele estava se confessando. Contando-me dos pecados que o atormentaram durante anos.
— E o que aconteceu? — Perguntei.
— Eu mesmo furei a garganta dele. E... B-bebi o sangue que jorrava... Ele se contorceu todo e deixou a vida ao passo que os outros fincavam facas por todo o seu corpo... M-me lembro do sangue escorrendo, manchando a areia branca e o to...
— Sem enrolação — Ameaço. 
 — E d-depois de ele agonizar até morrer...  Ingerimos o coração pra chamarmos Lunala. Nós... Fizemos a antiga oração.
— Fizeram?
— Fizemos.
— E então?
— Lunala...
O ancião parou, dando uma pausa pra chorar, o gosto do próprio sangue preenchendo sua boca para lembrá-lo do quão mau ele havia sido...
— Como ele era? — Perguntei.
— À princípio, era um morcego, uma criatura sombria... Eu não sei! Era... Envolto em uma névoa, uma coisa misteriosa... Mas então... Quando nos viu fazer as honrarias...
— Você quer dizer o sacrifício de duas pessoas inocentes?
— Isso. O sacrifício. Mas de uma pessoa só. O homem foi pra Lunala.
— É? E o que Lunala fez com o sacrifício?
— Ele sugou a alma dele. E quando abriu as asas... Ele tinha a mesma aparência esquelética do homem!
— E depois? — Perguntei, forçando a faca contra sua garganta e apertando até o limite.
— P-por favor! D-depois começou a amanhecer. Lunala foi embora... E rezamos pra Solgaleo.
— Como ele era? — Perguntei.
— Um felino. Um leão. Uma mistura de tudo. Ele... era forte. Musculoso, carnudo. A aparência dele... Era exatamente como... Como a da mulher... A morte dela foi pior! Nós... A queimamos viva em oferenda! E deu certo! Solgaleo apareceu e sugou todo o fogo, junto ao corpo incinerado da mulher!
— Puxa, e eu achando que estava sendo uma megera cortando os seus dedos, velhote! — disse sem pensar duas vezes. — Eram pessoas normais! Vocês nem sabiam os nomes deles! Os chama de "o homem" e "a mulher". Que tipo de ser humano é você?
— Por favor, minha senhora... — disse o homem, chorando sangue. — Me liberte! Me mate! Eu nunca vou me esquecer do que eu fiz! Eu venho sonhando com aquilo desde o dia seguinte ao ocorrido. Por favor, me mate. Eu não posso morrer de causas naturais, mas não tenho coragem de me suicidar! Acho que... Acho que o momento chegou. Por favor, me leve.
Eu sentia a súplica de um homem com muitos anos de pecado. As mãos dele estavam sujas e ele queria se redimir. Mas de que adiantaria se redimir se matando? Aquele homem... Aquela mulher... Nenhum deles voltará. Nenhum deles terá sua vida de volta. Foram dizimados. Pra sempre. E por uma causa boba. Mas se Lunala e Solgaleo deram a vida eterna pra esses velhos... Imagine o que eles poderiam fazer por mim...
— POR FAVOR! — Ele berrou, implorando para que eu acabasse logo com aquilo. Eu era o seu anjo da redenção naquele momento. Eu o estava fazendo refletir. E era bom que refletisse. Era bom que sofresse. Assim, eu pouparia o fio de muita faca...
Então eu me aproximei dele, e disse bem baixinho em seu ouvido...
— Se viver te faz sofrer... Então continuará vivo.
E o joguei em uma cela para apodrecer, ouvindo-o gritar e espernear, não por estar preso, mas por estar sendo esmagado pelo peso de seus próprios erros.  Por um momento, parei me perguntando se os gritos de uma pessoa sendo esfaqueada ou queimada viva seriam igual aos daquele velho...

Continua...

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Pokémon Sol & Lua: A Missão – Publicado originalmente em Junho de 2016 sob o título "Pokémon SL Adventures" – A cópia, venda ou redistribuição desse material é totalmente proibida. Pokémon e todos os respectivos nomes aqui contidos pertencem à Nintendo.

Ao escrever a fanfic, os autores não estão recebendo absolutamente nada, ou seja, esta é uma produção artística sem absolutamente nenhum fim lucrativo. A fanfic foi projetada apenas como uma forma de diversão, de entretenimento e passatempo para outros fãs de Pokémon. ~


(Img Original)

Capítulo escrito por #Kevin_
A fanart acima foi encontrada na internet. Todos os créditos vão a seu criador.

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